quarta-feira, 30 de julho de 2014

A menina da caverna

Ela estava lá dentro. Era escuro. Ela vivia sempre sozinha, falando com as paredes. O mais incrível é que havia vozes na sua cabeça. Diziam coisas que ela não queria saber. Queria esquecer [...]
Não ia lá fora. Só às vezes. Bem às vezes.
Ele entrou na caverna. Ela se encolheu. Se escondeu dele. Ele se aproximou, bem perto, mais perto. Chamou pela menina. Ela pouco a pouco foi se aproximando, como um animalzinho doméstico. Chegou bem perto.Ele sorriu.Ela também sorriu.
Ele conversou com ela. Falava coisas de lá de fora. Ela começou a imaginar, como seria tudo aquilo. Ele a convenceu a sair.
Ela não quis. Não quis. Até que quis. E saiu.
Quando saiu a claridade era muita, ela não conseguia enxergar. Ele segurou sua mão e os dois se afastaram da caverna. Caminharam, caminharam e caminharam.
Ela foi abrindo os olhos lentamente. E nossa! Tudo era tão lindo! Era mágico! Fantástico!
Ele foi mostrando tudo para ela, contando sobre as maravilhas daquele lugar. Tudo era bom. Ela estava feliz. Mas não para sempre. Às vezes lembrava da caverna. Tinha medo de voltar pra lá. Sacudia a cabeça várias vezes ao dia como se os pensamentos ruins fossem sair com o balanço.
Ele era bom. Mas os dias foram se passando. Ele não falava mais das coisas com a mesma felicidade. Nem segurava mais a mão da menina. Ela começava a tropeçar. Ele não a ajudava mais. Ela começou a ficar triste.
Um dia ela quis chegar perto dele. Como sempre fazia. Ele deu-lhe um tapa na face. Tão forte que o sangue no rosto da menina começou a surgir e ela caiu sentada na terra molhada. Ela ficou vermelha como um morango. Uma água salgada pulou de seus olhos. Ela não conseguia enxergar direito.
Ele olhou para ela com pena. Disse que gostava dela. Mas não para sempre. Tentou se aproximar. Ela correu. Tão rápido que não viu nada em sua frente. Apenas correu para longe.
"Não para sempre, não para sempre, não para sempre", repetia amargamente. Correu, correu. Percebeu então que estava perdida. Não sabia que lugar era aquele. A grama era alta e amarela. As árvores queimadas. Tudo com aspecto seco. Ela caminhou. O rosto doía pela pancada inesperada. Sentiu uma dor nas pernas e nos braços. Quando olhou para seu corpo estava toda cortada. Os galhos e espinhos haviam lhe machucado.
Olhou para o céu. Sozinha. Pediu ajuda para um anjo em silêncio. A dor era muita. Alguma coisa no seu corpo estava doendo mais do que o rosto, as pernas ou os braços. Era algo ali no meio. Bem no meio do seu peito. A dor era tremenda. O ar lhe faltava às vezes. Será que morreria?
Parou. Chegou ali.
Sua antiga morada. A caverna estava lá. Escura como sempre foi. Ela virou o corpo e olhou para o caminho que havia percorrido. Olhou para o céu. Estava quase anoitecendo.
Olhou para a caverna e entrou em silêncio.
Nada mais se ouviu.

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